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Alta Idade Média O MUNDO MEDIEVAL

Diversos escritores romanos deixaram registros sobre os germanos. Um deles foi Júlio César, que teve contato com esses povos no século I a.C., quando combatia na Gália. Outro foi Cornélio Tácito, autor da obra Germânia, publicada em 98 d.C., em que escreveu sobre a moradia, vestuário, casamento, guerra e diversos outros aspectos da sociedade germânica.

Alta Idade Média O MUNDO MEDIEVAL

EUROPA: DA UNIDADE ROMANA ÀS PLURALIDADES GERMÂNICA

Segundo a maior parte dos historiadores, o período denominado Idade Média teve inicio em 476, quando o último imperador romano do Ocidente foi destituído pelos povos germânicos. O ano de 1453, quando cidade de Constantinopla foi dominada pelos turcos-otomanos, marca o final desse período. Em se tratando da pluralidade dos povos germânicos, os gregos denominavam de bárbaros os povos de cultura diferentes, os romanos também passaram a chamar de bárbaros os povos que não pertenciam à cultura greco-romana, principalmente os germanos, hunos e celtas. Os germanos eram povos indo-europeus, falavam uma língua aparentada como o latim e o grego.

Ao longo de vários séculos deixaram suas terras de origem, na região do Báltico, e migraram para o sul, fixando-se na Europa central, nas imediações do império romano. Por vários séculos, a paz e a guerra marcaram as relações entre romanos e germanos. Mas houve um momento em que o equilíbrio se rompeu em favor dos germanos. Eles ocuparam o lado ocidental do império Romano e nele fundaram seus Estados.

  1. Como viviam os germanos:

Diversos escritores romanos deixaram registros sobre os germanos. Um deles foi Júlio César, que teve contato com esses povos no século I a.C., quando combatia na Gália. Outro foi Cornélio Tácito, autor da obra Germânia, publicada em 98 d.C., em que escreveu sobre a moradia, vestuário, casamento, guerra e diversos outros aspectos da sociedade germânica.

Segundo o relato de Tácito, os germanos misturavam a vida nômade com o sedentarismo. Embora vivessem basicamente da criação de gado e da caça, a agricultura ganhava importância cada vez maior, com base no cultivo do trigo e da cevada. Também praticavam a cerâmica, a tecelagem e, principalmente, a metalurgia. Seus instrumentos e armas de ferro eram de excelente qualidade. Isso não impedia que, de tempos em tempos, transferissem sua morada para outro local. De acordo com um estudioso do assunto: A Germânia era um território coberto por florestas e pântanos, com poucas terras férteis, que se esgotavam depois de alguns anos. Daí o seminomantismo de seu povo, sempre em busca de novas terras para a exploração, o que dificultou a formação do Estado entre eles. Essa carência de zonas férteis ajuda a entender a atração que tinham pelas terras do Império Romano. (Marco Antônio de Oliveira. A formação da Europa: a Alta Idade Média. 3. Ed.São Paulo: Atual, 1994. P.28)

Esse estilo de vida explica também a ausência de cidades entre os germanos. Sobre esse aspecto da vida dos germanos, o historiador romano Tácito, do século I d.C., deixou o seguinte registro: É fato sabido que os germanos não residem em cidades, nem constroem casas próprias umas das outros. Moram separados e dispersos, conforme lhe agrade um bosque, um prado ou uma fonte. Suas aldeias não são construídas como as nossas, com edifícios contíguos e pegados. Por precaução contra incêndios, ou por ignorância da arquitetura, deixaram um espaço vazio em torno das casas. (Tácito, Cornélio. Tacitus Germânia: latim-português. S.L. Mercedes-Benz. Tradução de Luís Martins).

2. A organização social:

Ainda de acordo como o relato de Tácito, os germanos viviam em tribos, compostas por vários clãs. Esses clãs eram grupos de famílias aparentadas entre si – uma espécie de grande família. Também eram considerados membros do clã individual que mesmo não fazendo parte da família dependiam dela. O mesmo acontecia com os escravos, que geralmente eram prisioneiros de guerra. Cada clã dominava um território com limites bem definidos. Os bosques e as áreas de pastagens eram de uso coletivo. Eram bens da família apenas o rebanho e a moradia, considerada templo dos deuses domésticos e local de veneração dos antepassados.

Os germanos davam grande importância à família. Era considerada a base da sociedade e fora dela o individuo perdia sua identidade. Na família, era o pai quem mandava. Tinha total autoridade sobre a esposa e os filhos, em caso de infidelidade da esposa, ela podia ser repudiada e até morta pelo marido. Os filhos só se livravam do poder do pai quando se tornavam guerreiros, por volta dos 15 anos de idade, as filhas permaneciam sob a autoridade do pai até o casamento, quando então passavam a obedecer ao marido. Entretanto, as mulheres tinham o direito de tomar parte, junto com os irmãos, na partilha da herança dos pais.

Tudo isso funcionava de acordo com os costumes, pois os germanos não possuíam leis escritas. Isso se chama direito costumeiro ou direito consuetudinário – sistema jurídico com base nos costumes. Uma das características do direito germânico era o ordálio, uma forma de julgamento que consistia em submeter o acusado a uma prova dolorosa, por meio do fogo ou da agua. Se o acusado resistisse, era considerado inocente, pois isso era interpretado com a vontade dos deuses. Após o fim do império Romano e o inicio da Idade Média, o direito costumeiro germânico permaneceu como parte da cultura europeia.

3. A importância da guerra:

A principal instituição política entre os germânicos era a Assembleia dos guerreiros, que reunia os chefes de família e os demais homens livres da tribo. Ela deliberava sobre as questões mais importantes e escolhia o rei, cujo poder dependia de sua capacidade de comando nas guerras. Os germanos guerreavam com frequência. As guerras tinham claro objetivo econômico, pois era uma forma de obter riquezas, terras e escravos.

A partir dos 15 anos, todos os homens eram guerreiros. Os guerreiros que tomavam parte nas expedições faziam um juramento de lealdade ao rei. Se ele morresse em combate, os membros do grupo deviam vinga-lo ou sucumbir. A lealdade ao grupo e a morte em combate se revestiam de um caráter sagrado. De acordo com Tácito:

Na guerra, é uma vergonha para o chefe ser superado em valentia. Se sobreviverem à luta, morto o chefe, ficam infamadas e desonrados para toda a vida. Pois defendê-lo e protegê-lo, a ele atribuindo os próprios atos de bravura que praticam, é dever sagrado dos guerreiros, imposto por juramento. O comandante combate pela vitória; e os demais, pelo comandante.

Tácito usou o termo comitatus para designar esse agrupamento de guerreiros, baseado na realidade. Tornou-se posteriormente um dos elementos que caracterizaram as relações entre suserano e vassalo no feudalismo.

4. A religião e mitologia dos povos germânicos:

Como tantos outros povos da antiguidade, os germânicos praticavam uma religião politeísta. Não tinham templos; o culto era celebrado a céu aberto. Adoravam muitos deuses, que em geral representavam elementos da natureza (trovão, Sol, raio, mar, fertilidade, etc.) A divindade mais importante era Odin. Considerado o protetor dos guerreiros e dos poetas, estava associado ao conhecimento, à sabedoria e à magia. Montando num cavalo de oito patas, levava sempre consigo uma lança infalível. Morava numa fortaleza. Ali ficava o Valhala, uma espécie de paraíso, onde eram levados os guerreiros mortos em combate. Segundo as crenças germânicas, ele era casado com Frigga, deusa do lar e da fertilidade. Odin e Frigga tinham um filho, Thor, deus da tempestade e do trovão, que simbolizava a força da natureza.

Era representado com o cabelo vermelho e barba. Como arma, portava um martelo mágico, que, quando lançado nunca errava o alvo e retornava ás suas mãos. Os anglo-saxões deram o nome de Thor ao quinto dia da semana, Thursday – ou seja, dia de Thor. Thor tinha um irmão, Loki, uma figura de índole maligna, traiçoeiro. Seu destino seria liderar o exercito do mal na batalha final com os deuses, na qual ele seria morto. As crenças germânicas admitiam diversas divindades. Sendo uma sociedade guerreira, um lugar de destaque cabia às valquírias. Eram divindades menores, representadas por mulheres jovens, armadas de lança e escudo, que sobrevoavam os campos de batalha montados em cavalos brilhantes. Recolhiam os guerreiros mortos em combate e os levavam para a Valhala, onde eles eram recompensados por sua coragem. Essa religião tradicional dos povos germânicos começou a desaparecer no século IV, tendo sido substituída pelo cristianismo.

5. A fronteira, local de encontro entre civilização:

Os romanos fizeram várias tentativas para conquistar a Germânia, e todas resultaram em fracasso. Numa dessas tentativas, ocorrida no ano 9 da Era Cristã, três legiões romana foram aniquiladas por uma aliança de povos germânicos na batalha da Floresta de Teutoburgo, em que foi morto o próprio comandante romano. Depois disso, os romanos desistiram de conquistar a Germânia e adotaram a seguinte estratégia: fortalecer a fronteira do império na Europa, fixada nos rios Reno e Danúbio, e ali concentrar poderosos exércitos que pudessem conter as investidas dos germanos. Por muito tempo, a estratégia funcionou: salvo uma ou outra incursão, os germanos foram mantidos a distancia. Isso, entretanto, não quer dizer que os romanos e germânicos fizessem guerras entre si todo o tempo. Ao contrario: os contatos amistosos entre os dois lados intensificaram-se com o passar do tempo. O governo de Roma reconhecia o valor guerreiro dos germânicos.

E, desde Diocleciano, que reinou de 184 a 305, o governo romano passou a admiti-los com uma frequência cada vez maior no exercito imperial. Diversos chefes germânicos ocuparam elevados cargos no exercito romano. Além disso, algumas tribos foram autorizadas a se estabelecer no interior das fronteiras. Tornavam-se “federados”, quer dizer “associados” de Roma, com direito de preservar sua organização social e política. Em troca, deviam ajudar na defesa do império. O resultado desse intercambio foi a gradativa “germanização” do exercito romano.

6. Os germanos também mudaram seu modo de vida:

Muita coisa mudou também na vida dos germânicos. Como escreveu o historiador Le Maître, Philippe: As velhas estruturas tribais e igualitárias deram lugar a sociedades hierarquizadas e organizadas, muito menos distante da sociedade rural do Ocidente romano do que se pensa normalmente. Durante quatro séculos, as trocas econômicas e culturais entre romanos e germânicos foram numerosas. A cada abo novas descobertas arqueológicas revelaram a amplitude dessas relações comerciais. Os fortes de limes, espalhados ao longo das fronteiras do império, não foram apenas lugares de defesa, mas também centros de trocas de primeira importância (...).

De fato, nos assentamentos germânicos, os arqueólogos têm encontrado moedas e muitos outros objetos de origem romana. Isso comprova que o comercio devia ser algo comum na fronteira que separava os dois povos.

Junto com as mercadorias, seguiam também influencias culturais. No campo religioso, o cristianismo estava rapidamente fazendo adeptos entre os germanos e chegou a ser adotado por vândalos, visigodos, ostrogodos, suevos, burgúndios e lombardos. Eles seguiam, porém, uma versão do cristianismo chamada arianismo, que era combatida pela Igreja Católica. Mas o fato de serem cristão já os tornavam mais próximo da cultura romana.

7. Causas das invasões germânicas:

No século IV, uma combinação de fatores favoreceu a invasão do Império Romano pelos germanos. O desejo de ocupar as terras do Império Romano já era antigo, e aumentava à medida que crescia a população entre as tribos germânicas. Essa pretensão foi contida enquanto o Estado romano se manteve forte. Porém, a defesa das fronteiras ficou cada vez mais difícil em virtude da crise que enfraquecia o império romano. A situação se agravou rapidamente a partir do século IV, e a causa disso foi à chegada dos hunos á Europa. Eram notáveis cavaleiros e pastores provenientes de uma região da Ásia localizada ao norte da China. No caminho, encontraram com os godos. Esse povo germânico estava dividido em duas grandes tribos, os ostrogodos e visigodos. Os primeiros a enfrentar os hunos foram os ostrogodos. Derrotados, bateram em retirada e invadiram o território de seus vizinhos e parentes, os visigodos. Estes, então, pediram e obtiveram autorização imperial para atravessar a fronteira e se estabelecer ao sul do rio Danúbio. Um historiador do século VI explica a razão da entrada dos visigodos em terras romanas e por que eles se converteram ao arianismo:

Os visigodos (...) estavam aterrados (...) e não sabiam o que fazer, por causa dos hunos. Porém, depois de longas deliberações, de comum acordo, enviaram embaixadores (...) ao imperador Valente (...) para dizer que se ele lhes desse, a fim de a cultivarem, uma parte da Trácia (...) se submeteriam às suas leis e decisões. Para que pudesse ter maior confiança neles, prometeram tornar-se cristão (...). Quando Valente ouviu isto, concedeu alegre e prontamente o que ele próprio havia tencionado a pedir. (...) E como naquele tempo o imperador Valente, contaminado pela perfídia ariana, tivesse fechado todas as igrejas do nosso partido, enviou-lhes como pregadores os que favoreciam a sua seita. (Jordanes. In Espinosa).

O relacionamento entre os romanos e os visigodos, porém, não foi pacifico. Estes reclamavam que eram maltratados pelos funcionários romanos. A situação acabou provocando uma revolta dos visigodos. Em 378, eles derrotaram o exercito romano na batalha de Adrianópolis, na qual o próprio imperador Valente perdeu a vida. A pesar dessa vitória, os visigodos ainda permaneceram na região por alguns anos. Depois, sob a liderança de Alarico, avançaram em direção à Itália. Em 410, tomaram e saquearam Roma, de onde seguiram para a Gália e a Espanha. Ali se fixaram e, mediante um acordo, tornaram-se aliados de Roma.

8. A ocupação do Império por outros povos:

Na mesma época em que os visigodos tomavam o rumo da Itália, outras tribos germânicas atravessaram as fronteiras romanas, às vezes, sem encontrar resistência, em virtude do enfraquecimento geral do império.

Os vândalos, acompanhados dos alanos e suevos, passaram pela Gália e ocuparam a Espanha. Os suevos estabeleceram-se na Lusitânia. Os alanos se dividiram: alguns ficaram na península Ibérica e outros seguiram os vândalos na invasão do norte da África. Nas imediações da antiga Cartago, os vândalos fundaram um grande reino. Nos anos seguintes, conquistaram a Sicília e outras ilhas do Mediterrâneo. Em 455, tomaram Roma. A cidade foi submetida a um saque que durou 14 dias seguidos. Da ação destruidora desse povo derivou a palavra vandalismo, usada para designar atos de destruição.

Alamanos e burgúndios estabeleceram-se na Gália. Também os francos foram aliados dos romanos, e por algum tempo ajudaram Roma a combater seus inimigos. A expansão de seus domínios permitiu que o reino fundado pelos francos viesse a ter grande importância nos séculos iniciais da Idade Média. Em meados do século V, anglos e saxões desembarcaram na Grã-Bretanha, que havia sido abandonada alguns anos antes pelos romanos. Venceram a resistência da população local, formada por celtas e bretões, e ocuparam a ilha: os saxões estabeleceram seu reino no sul da ilha e os anglos se fixaram no centro e no norte. Os idiomas falados por esses invasores iriam dar origem ao inglês.

9. O fim do império Romano do Ocidente:

O império Romano, que se julgava invencível e eterno, ia rapidamente sendo dominado pelos povos germânicos. Diversos imperadores se sucederam no poder em Roma, mas nenhum conseguia reunir forças suficientes para impedir o declínio do império. Por fim, em 476, Odoacro, um chefe germânico que era general do exercito romano, destronou o ultimo dos imperadores, um menino de 12 anos que carregava o pomposo nome de Rômulo Augusto. Odoacro enviou os símbolos do pode imperial (coroa e cetro) ao imperador do Oriente e se proclamou rei. Seu reinado durou até 493, quando todo o Império Romano caiu em poder de outro povo germânico, os ostrogodos.

Quando o século V terminou, toda a parte ocidental do Império Romano estava tomada pelos reinos germânicos. Entre estes, os mais importantes eram o dos vândalos no norte da África, o dos visigodos na Espanha, os reinos dos anglos e dos saxões na Grã-Bretanha, o dos francos na Gália, e o dos ostrogodos na Itália. A queda do ultimo imperador, em 476, assinalou o fim do império Romano do Ocidente. Posteriormente, os historiadores escolheram essa data para marcar o fim da antiguidade e o começo da Idade Média.

10. O nascimento da Europa medieval:

A queda do Império Romano do Ocidente ocorreu menos pela força dos invasores do que pelo enfraquecimento das forças romanas, provocada por uma crise que já durava mais de dois séculos. Essa crise levou ao declínio do trabalho escravo, das cidades, da economia mercantil e monetária, e também ao colapso da proteção que o Estado romano devia oferecer à população.

A chegada dos germanos acentuou essas tendências e ainda acrescentou novos elementos à realidade europeia. Entre estes estava, por exemplo, a ideia de obrigações recíprocas entre o chefe e seus guerreiros. Nesse universo em transformação, um papel especial coube à Igreja Católica, praticamente a única entidade que conseguiu sobreviver intacta. Ela preservou um importante aspecto da cultura romana, a língua latina, que os germanos aprenderam a falar. E conseguiu, em meio a muitas dificuldades, converter os germanos à versão oficial do cristianismo.

Em síntese, as tendências da sociedade romana, somadas às instituições trazidas pelos germanos e ao papel desempenhado pela Igreja, lançaram as bases de uma nova sociedade que se formou na Europa da Idade Média – a sociedade feudal.

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