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Crise da República Oligárquica I

O sistema político da República Velha – de acesso restrito sempre às mesmas famílias ou grupos oligárquicos – acabou por gerar insatisfações.

Crise da República Oligárquica I

Crise política

 

A proclamação da República envolveu grandes expectativas para o país. Imaginava-se que boa parte de seus males estava ligada à forma de governo monárquica, e que a república, regime de iguais regidos por uma mesma lei, seria moderna e menos propensa a vícios. Em pouco tempo essas expectativas foram frustradas.

“Essa não é a república dos meus sonhos”, teria dito Martinho Prado da Silva Jr., um dos fundadores do regime, já em 1891. Quando seu grupo chegou ao poder, substituindo os governos militares, outros sujeitos passaram a projetar ideias diferentes para o regime. Como a república também não satisfazia seus sonhos, começaram a agir para produzir novas mudanças.

O sistema político da República Velha – de acesso restrito sempre às mesmas famílias ou grupos oligárquicos – acabou por gerar insatisfações. Certos setores estavam irremediavelmente condenados à oposição, fossem grupos ou famílias secundários dentro dos estados, fossem oligarquias de outros estados que não Minas Gerais ou São Paulo no âmbito federal. Como não

havia uma verdadeira alternância de poder, o descontentamento desses grupos conduziu ao rompimento do pacto político, originando as oligarquias dissidentes.

Diante do imobilismo do sistema, as dissidências oligárquicas tornavam-se cada vez mais frequentes e demonstravam a corrosão interna de todo o sistema. Enquanto aqueles que detinham o monopólio do poder político no país aproveitavam para obter vantagens econômicas excepcionais – por exemplo, a política de valorização do café –, outros grupos oligárquicos disputavam o poder visando garantir seus privilégios particulares, sem, no entanto, conseguir. Os choques, portanto, eram quase inevitáveis. Além da corrosão interna do sistema, as oligarquias ainda enfrentavam problemas externos que contribuíram para enfraquecê-las ainda mais. O Brasil passava por transformações econômicas que provocavam o surgimento de novas classes sociais ou, pelo menos, o fortalecimento de grupos recentemente formados.

Os novos grupos sociais, essencialmente urbanos, logo demonstraram sua força, com reivindicações próprias e atuação política independente, quase sempre contrária às oligarquias.

Finalmente, o exército, calado desde o episódio de Canudos, voltou a manifestar-se politicamente por meio de seus jovens líderes, embora defendesse ideias não necessariamente novas. Dessa forma, o período que se iniciou em 1914 foi bastante agitado, com o enfraquecimento da ordem oligárquica e sua posterior queda em 1930.

Os presidentes do período foram: Venceslau Brás (1914-1918), Delfim Moreira (1918-1919), Epitácio Pessoa (1919-1922), Artur Bernardes (1922-1926) e Washington Luís (1926-1930).

 

as transformações sociais e econômicas

 

Ao longo do período denominado República Velha (1889-1930), o Brasil passou por mudanças

sociais e econômicas cujos efeitos, apesar de importantes, só se fariam sentir a longo prazo. É o caso, por exemplo, da expansão demográfica, bastante acelerada no país e intensificada no período graças à imigração europeia.

Devido à entrada de imigrantes e sua concentração no Sul e Sudeste do Brasil, essas regiões tiveram um crescimento populacional mais acelerado que as demais. Uma porcentagem significativa da população, sobretudo dessas regiões, habitava cidades cada vez maiores. A urbanização refletia maior diversificação da economia, bem como o desenvolvimento de uma infraestrutura ligada aos transportes (basicamente ferrovias), comércio, bancos e meios de comunicação (telégrafo, jornal e rádio).

No entanto, a transformação mais significativa verificada no período foi o desenvolvimento das indústrias, principalmente no estado de São Paulo, inegavelmente vinculado às condições criadas pela cafeicultura, bem como à decorrente concentração da produção no estado.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial, em julho de 1914, deu grande impulso ao desenvolvimento industrial brasileiro.

Com a guerra, a atividade industrial europeia concentrou-se na produção bélica, reduzindo a oferta de itens exportáveis. Em consequência, o Brasil passou gradualmente a importar menos produtos industrializados, o que estimulou a produção nacional. Além disso, a desvalorização

cambial da moeda brasileira, ao encarecer as importações, contribuiu para diminuir a concorrência estrangeira. O Brasil passou a produzir basicamente bens de consumo não duráveis, como têxteis e alimentos processados industrialmente.

Nesse contexto, grupos sociais urbanos (burguesia industrial, operariado, clawsse média) se desenvolveram e passaram a ter uma importância inédita no país, convertendo-se em grupos de pressão política com atuação crescente.

 

novos sujeitos na Cena histórica

 

A expansão da indústria brasileira nas primeiras décadas do século XX deveu-se em grande parte ao capital proveniente da cafeicultura, aplicado na produção de artigos manufaturados. Isso mostrava que os donos das fábricas frequentemente também eram os proprietários dos cafezais. Devido à situação política vigente, os interesses da lavoura sempre eram colocados em

primeiro plano. Além dos cafeicultores, eventualmente comerciantes voltaram-se para a atividade industrial, muitos dos quais eram imigrantes enriquecidos. Esses dois grupos tiveram grande importância na formação da burguesia industrial nacional.

As possíveis divergências entre essa nascente burguesia e a política econômica adotada pelo governo oligárquico, voltada exclusivamente para a lavoura, eram aplacadas pela vinculação do grupo industrial ao capital cafeeiro.

No entanto, por mais tímida que fosse a burguesia industrial na defesa de seus interesses, sua simples existência representava uma alternativa política ao monopólio do poder exercido pelas oligarquias. Caso o regime oligárquico entrasse em colapso, a burguesia poderia muito bem se colocar à frente de um novo regime.

O operariado, por sua vez, como já foi afirmado, submetido à intensa exploração, típica do industrialismo nascente, teve suas origens ligadas à imigração. Em seu trabalho, a norma era ter longas jornadas e péssimas condições de trabalho para homens, mulheres e crianças, bem como salários aviltantes. Sindicatos e outras associações organizavam movimentos, como greves, e iam aos poucos se firmando, nos frequentes confrontos com a repressão dos patrões.

Nesse meio, florescia também uma rica imprensa operária, com periódicos publicados até mesmo em língua estrangeira (por exemplo, italiano), não apenas porta-vozes das opiniões dos trabalhadores, mas também divulgadores de sua ideologia. Em um primeiro momento, as ideias mais disseminadas no meio operário foram as do anarquismo, trazido para o país pelos imigrantes italianos e espanhóis.

 

A ideologia anarquista, por um lado, estimulava a organização e a resistência dos trabalhadores. Esteve por trás, por exemplo, da grande greve geral de 1917, reprimida violentamente pelas autoridades policiais. Por outro lado, no entanto, ao pregar a destruição do Estado e rejeitar a organização em um partido destinado a assumir o poder, falhava em oferecer uma proposta viável de alternativa política para o país. De qualquer forma, o operariado, embora crescente,  era ainda muito frágil e tinha dificuldades para viabilizar um projeto próprio de governo.

O impacto da Revolução Russa de 1917 e o surgimento de algumas grandes unidades industriais no Brasil, agrupando centenas de trabalhadores na mesma fábrica, influenciaram a fundação e a expansão do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 1922. Sua atividade sindical desenvolveu-se a partir de 1925, apesar de o partido ter permanecido ilegal entre 1922 e 1927. No entanto,

mesmo nesse período, o partido chegou a ter uma representação política, por meio do Bloco Operário e Camponês, que não apenas elegeu alguns representantes para funções legislativas, como também chegou a apresentar candidato para as eleições presidenciais de 1930, o operário marmorista Minervino de Oliveira.

a classe média

 

Grupo basicamente urbano, a classe média tendia a se opor ao regime oligárquico. Além de sofrer as consequências da inflação provocada pelas sucessivas valorizações do café, tinha pouca participação política, em razão da fraude eleitoral que se tornara comum no período e do voto rural – parcela decisiva do eleitorado ainda em 1930, conservadora e moralista. A classe média defendia o voto secreto e repudiava o poder dos coronéis. Em princípio, compartilhava com a burguesia os mesmos valores (intelectuais e sociais), mas tinha dificuldade em expressar-se politicamente por meio de um partido político e evitava manifestações mais radicais, como greves. Na verdade, tanto quanto a elite, temia as massas. A insatisfação da classe média com o regime transferia-se para o exército, que tinha muitos oficiais oriundos desse setor da sociedade. Na década de 1920, surgiu um movimento em meio à jovem oficialidade do exército, o tenentismo, que rapidamente atraiu a simpatia de setores sociais urbanos.