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Iluminismo

As ideias liberais dos iluministas tiveram grande penetração na França, onde um Estado falido e uma aristocracia apegada a seus privilégios tentavam, de todos os modos, opor-se as mudanças exigidas pela burguesia e pelo povo.

Iluminismo

O Iluminismo

 

"Nossa divisa é: sem quartel aos supersticiosos, aos fanáticos, aos ignorantes, aos loucos, aos perversos e aos tiranos...será que nos chamamos de filósofos para nada?" - (Carta de Diderot a Voltaire, em 29 de setembro de 1762.)

 

A família iluminista

Acreditavam-se todos eles pertencer a uma só família, cujos membros espalhavam-se por Edimburgo, Nápoles, Filadélfia, Berlim, Milão ou Königsberg e, é claro, Paris. Eram os philosophes iluministas, escritores e livres-pensantes que organizavam-se ao redor de alguns dos mestres-pensadores da época, tais como Adam Smith, David Hume, Edward Gibbon, Diderot, o barão d'Holbach, Helvetius, o excêntrico filósofo Emanuel Kant e, evidentemente, em torno do "mestre" Jean-Jacques Rousseau e do seu rival , o "rei" Voltaire. Consideravam seus mentores espirituais os grandes pensadores do século anterior, tais como René Descartes, Isaac Newton e John Locke. Como em qualquer família, ocorriam desavenças entre eles, mas qualquer insinuação de prisão ou censura que pairasse sobre um dos seus integrantes, era o sinal para que os demais se mobilizassem na defesa do perseguido. Tornou-se célebre a afirmação de Voltaire que disse a um contendor seu: "Senhor, sou contra tudo o que vossa senhoria disse, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la".

 

A secularização da sociedade

Empenhava-se, essa estranha família de escritores das mais diversas nacionalidades, na propagação de uma vasta e ambicioso programa comum: a secularização total da sociedade! Secularismo, humanismo, cosmopolitismo e liberdade em todos os sentidos, eram as bandeiras deles. O direito à liberdade de palavra, de expressão, de imprensa, também se estendia para eles à liberdade de comércio, à liberdade do empreendimento econômico, fora das intromissões da censura da Igreja e do Estado absolutista-mercantilista. Livres enfim, para que cada um, de acordos com os talentos nascidos ou adquiridos, encontrasse o seu próprio caminho de realização. Desprovidos em sua maioria de cátedras acadêmicas, tendo o púlpito e os padres como inimigos, quais foram os instrumentos que aquela confraria de homens de letras se serviu para difundir seus ideais e princípios? Porque, de certa forma, os Iluministas tiveram que buscar e ao mesmo tempo formar o seu próprio público.

Para chegar até ele, para atingir o novo público cultivado (tanto de gente da nobreza como das classes burguesas) que gradativamente estava se formando na sociedade européia do século XVIII, recorreram intensamente à publicação e difusão de livros. Quando, devido à censura ou a uma queima judicial, recorriam à impressões clandestinas (feitas na Holanda ), depois as introduziam por contrabando em qualquer canto da Europa. Revelaram-se verdadeiros mestres em escrever panfletos, publicações que fizeram largo uso devido ao lado prático que eles tinham como veículo instantâneo de difusão de idéias. Daí boa parte da literatura deles, fosse em verso ou em prosa, estar carregada pelo estilo polêmico e apaixonado.

 

A Enciclopédia

O mais poderoso e duradouro de todos os instrumentos para a divulgação das Luzes - obra magna da propaganda iluminista - foi a edição da Enciclopédia, ou Dictionaire raisonné des sciences, des arts, et des métiers, dirigida por Jean Le Rond d'Alembert (entre 1751-54) e, em seguida, por Denis Diderot. Grandiosa publicação que se seguiu por vinte anos, até que, em 1772, o seu 17º volume encerrou a obra inteira. Fazendo com que, segundo Daniel Mornet, o século XVIII fosse "com toda a certeza....um século enciclopédico". Acertada sua impressão por meio de subscrições, a Enciclopédia ultrapassou largamente os seus 8.011 assinantes originais, virando leitura obrigatória entre os homens cultos do século. Foi uma obra consultada por uma quantidade inumerável de leitores por toda Europa e América incluída.

Tratou-se de uma estupenda síntese do conhecimento científico, com grande ênfase nas artes mecânicas e na sabedoria prática das coisas da vida, servindo de modelo para todas as demais que a seguiram posteriormente. A predominância e gosto por temas seculares e o alto nível dos seus colaboradores - Diderot selecionou o supra sumo da elite intelectual (disse-lhes "É preciso examinar tudo, remexer tudo sem exceção e sem reserva") - fez da Enciclopédia o acontecimento editorial e intelectual do século. Entre os grandes nome arrebanhados por ele estavam Montesquieu (Leis), Lamarck (botânica), Helvetius (matemática), Rousseau (música), Buffon, Necker, Turgot, Mongez, além de artigos do barão d'Holbach, um ateu militante, e Voltaire(encarregado dos verbetes sobre Elegância, História, Espirito e Imaginação), num total de 139 colaboradores identificados. Talvez ela tivesse para o mundo burguês e industrial que então despontava, o mesmo significado que a Suma Teológica de São Tomás de Aquino teve para a Europa medieval.

 

A intensa correspondência

O homem culto do século XVIII é acima de tudo um grande escritor de cartas. Havia uma verdadeira arte da epistolografia, atribuindo-se somente a Voltaire mais de 50 mil cartas! Como sabiam que mais tarde haveria interesse em publicá-las, cuidavam do estilo e da apresentação delas, como se fossem páginas ou capítulos de livros futuros.

Por gostarem de trocar informações e colocar os outros integrantes da irmandade - la petit troupe - a par do que estavam fazendo ou pensando, elas, as cartas, converteram-se num veículo confiável, rápido, e, fundamentalmente, ao abrigo da censura. Tanto é que os americanos fizeram largo uso delas quando espalharam pelas Treze Colônias os Comitês de Correspondência, formados por ativistas da independência e simpatizantes da causa iluminista, entre eles, destacando-se acima de todos, Benjamim Franklin. Logo, pode-se afirmar que as cartas distribuídas pelos Comitês de Correspondência foram as sementes da Revolução Americana de 1776

Aliás, foi por meio de uma das suas cartas, escrita a Hélvetius em 1763, que Voltaire canta a vitória do partido das luzes sobre os partidários da superstição e do obscurantismo. Dizia ela: "Essa razão que tanto perseguimos avança todos os dias [..] Os jovens se formam, e aqueles que são destinados aos lugares mais elevados desfazem-se dos infames preconceitos que aviltam uma nação. Sempre haverá um grande número de tolos, e uma boa multidão de patifes. Mas os pensadores, mesmo em número pequeno, serão respeitados [..] Esteja certo que tão logo as pessoas de bem se unam, nada mais poderá detê-las. É do interesse do rei, e do Estado, que os filósofos governem a sociedade... Chegou o tempo em que homens como você devem triunfar [...] Afinal, nosso partido já vence o deles em matéria de boa educação." - (Carta a Helvitus, em 15.9.1763)

 

A imprensa e o panfleto

Apoiaram-se também os iluministas na imprensa. Editou-se muito no século XVIII. A tal ponto que o filósofo Hegel disse que a leitura diária do jornal "era a oração do homem moderno". Somente na América do Norte daquele século, estima-se me mais de dois mil títulos de jornais tenham vindo à luz. Mas o panfleto foi o veículo soberano da comunicação no Século das Luzes. Infelizmente perdeu-se a maior parte deles, mas Voltaire esgrimia com eles utilizando-os em suas célebres campanhas (pela introdução do teatro em Genebra ou em defesa da família Calais e no affair Sirven). Eram de baixo custo, fáceis de serem transportados e escondidos, e geralmente eram escritos em linguagem sintética e objetiva, que depois veio a ser a escrita comum de quase toda a imprensa moderna. Era também uma publicação democrática, pois atingia tanto o salão do aristocrata, como a taverna operária e o café do literato.

 

Salões & clubes

Ainda entre a elite pensante - formada difusamente por nobres liberais, padres dissidentes e livres-pensadores da mais variada procedência - foram importantíssimos os encontros realizados nos salões. Geralmente organizados ao redor de uma grande dama, eles foram o centro da vida social e intelectual da sociedade no Ancien Régime. Os mais afamados salões foram os da M.me Deshoulières, da M.me. Sablière, da condessa la Suze e o da lendária Ninon de Lanclos, verdadeiros oásis de tolerância, espirito irreverente, acolhendo em seu meio ateus, deístas e libertinos. O constante intercâmbio entre seus freqüentadores, as leituras proibidas que realizavam em público, a troca de livros e idéias, o espirito livre e solto, fez dos salões um celebrado agente do Iluminismo. O salão de M.me. d'Epinay foi um dos que se tornou cenário para o lançamento de originais literários (e inclusive musicais) que eram submetidos previamente aos "árbitros das artes", que atuavam como um espécie de "porta-vozes do público", perante quem os autores ou compositores tinham por primeiro que legitimar-se.

Os clubes masculinos e as associações profissionais igualmente tornaram-se pontos de apoio importantes para propiciar o debate sobre as tendências do momento, formando, junto com a imprensa, o que se chamou de "esfera pública literária."

 

As lojas maçônicas

Acima de tudo, em importância para a história da difusão das ideias, pairaram as lojas maçônicas (a importância delas era tamanha que, já no século XVII, o filósofo Leibniz considerava a sociedade civil como um simples prolongamento delas) tornaram-se focos de ativismo político, de troca de panfletos e de elaboração de estratégias de combate na luta contra a superstição e o obscurantismo. Mirabeau, quando militava como um "irmão", redigiu um programa para a sua loja cuja finalidade "era a introdução da razão, da sensatez, da sã filosofia na educação de todas as ordens de homens." (Memoire, 1776). Schiller escreveu um belo poema (Freude) para ser cantado numa loja maçônica frequentada por um amigo seu, e Mozart compôs a Zauberflöte,1791, a Flauta Mágica para atender uma encomenda de uma loja austríaca.

Tal como numa mascarada, a luz da razão era obrigada a esconder-se para proteger-se, desvelando-se aos poucos. Por primeiro apenas aos confiáveis, daí a importância dos salões, dos clubes e das lojas.

Algumas cortes européias serviram por igual de abrigo aos iluministas. Especialmente conhecido foi o Tabernáculo que Frederico o Grande, da Prússia, montou na sua propriedade, em Saint-Soucy, convidando para lá uma elite de livres-pensadores. Lá estiveram o naturalista Maupertuis, La Mettrie, o perseguido autor do "Homem máquina" e o mais famosos de todos, Voltaire. Catarina II da Rússia tentou o mesmo com Diderot e José II da Áustria celebrizou-se em proteger os pensadores do furor da Igreja Católica. Os reis apoiaram os livres-pensadores na medida em que podiam servir-se deles para reformar os estados antes que uma possível revolução explodisse. E também faziam questão de protegê-los para fins publicitários, para terem uma boa imagem junto às classes culturas e refinadas da Europa de então. Por isso se entende que em matéria de política a maioria dos iluministas seguiu a Doutrina do Dr. Johnson, favorável ao despotismo ilustrado. Porém, historicamente, a agitação e a insubordinação aos costumes e a crítica à religião que abertamente a maioria deles praticou, fez com que, ironicamente, os iluministas fossem tidos como os arautos da democracia moderna.

 

Os cafés

Mais democráticos do que os salões (que reuniam a nobreza e a elite pensante), os clubes (que congregavam os profissionais) e as lojas (dos maçons), foram também importantíssimos os cafés. Espalhados pelas cidades e pelas principais capitais da Europa e mesmo da Nova Inglaterra, esses estabelecimentos eram o salões das classes médias, dos jornalistas e dos escritores iniciantes, abrigando a efervescência e a inquietação provocada pelas novas ideias. Em Paris, um dos mais famosos foi o La Coupolle, o favorito de Voltaire, e em Milão, atraiam as presença de nobres como Cesare Beccaria e dos irmãos Pietro e Alessandro Verri, que inclusive lançaram um periódico com o título de "Il Caffè", para defender a tese da abolição da tortura. No jogo dos símbolos importa observar que a Era da Taberna, associada ao álcool e à embriaguez, que dominou inteiramente o século anterior, o XVII, deu lugar no século XVIII à Era dos Cafés, estimuladora do espirito e da palavra ágil, contestadora.

O café encerrava o que podemos chamar de o circuito da opinião pública do Século das Luzes composto, como viu-se, pelo salão, pelo clube e pela loja maçônica. O conservadorismo das universidades e o reacionarismo das igrejas, graças à intensa censura e à repressão constante, procuraram impedir que as novas idéias atingissem os estudantes e os paroquianos, mas com isso permitiram, sem assim o desejar, que um outro publico se formasse a revelia dos acadêmicos e dos sacerdotes.

 

A opinião pública

Numa conhecida tese (Mudança estrutural da esfera pública) defendida em 1961, o filósofo Jürgen Habermas mostrou que o conceito de "opinião pública", tal como hoje se conhece, nasceu no século XVIII. Comprova-se isso, segundo ele, pelo fato de que a palavra publicité (öffentlich em alemão) começou a ser empregada, contraposta à autoridade, a partir daquela época (resultante da dilatação da sociedade civil que, com a proliferação dos salões, dos clubes, dos cafés, das livrarias e das lojas maçônicas, criou um espaço de emancipação para os burgueses), abria seu caminho devido à expansão comercial e industrial, e à crescente amplitude da mercantilização das coisas. O surgimento dela, da "opinião pública", deveu-se substancialmente ao crescimento da vida urbana, ao aumento do número dos leitores, e ao impacto causado pela revolução da sociedade civil inglesa do século XVII. Locke, o grande filósofo patriarca do Iluminismo, quando galgou para a direção do College Christ em Oxford, colocou a Law of Opinion, a Lei da Opinião, como que equivalente à lei divina. Dessa forma, além da opinião da corte e da opinião do clero, predominantes e absolutas nos tempos feudais, forjou-se a opinião pública como representante ainda que difusa dos interesses gerais do Terceiro Estado e, por vezes, da sociedade como um todo. Inegavelmente a "opinião pública" mostrou-se cada vez mais permeável às ideias Iluministas, por todas as razões expostas acima. Quanto ao povo em geral, grande parte ainda analfabeto, era atingido, e por vezes mobilizado, pela propaganda das luzes graças aos affriches (panfletos) que eram distribuídos ou lidos em voz alta nos lugares públicos.

O iluminismo foi um movimento que caracterizou o pensamento europeu do século XVIII, baseado na crença do poder da razão e do progresso, na liberdade de pensamento e na emancipação política.

Muitos dos filósofos do iluminismo francês tinham visitado a Inglaterra, que em certo sentido era mais liberal do que a França. A ciência natural inglesa encantou esses filósofos franceses. De volta a sua pátria, a França, eles começaram pouco a pouco a se rebelar contra o autoritarismo vigente e não tardou muito a se voltarem também contra o poder da Igreja, do rei e da aristocracia.

Eles começaram a reimplantar o racionalismo em sua revolução. A maioria dos filósofos do Iluminismo tinha uma crença inabalável na razão humana. A nova ciência natural deixava claro que tudo na natureza era racional. De certa forma, os filósofos iluministas consideravam sua tarefa criar um alicerce para a moral, a ética e a religião que estivesse em sintonia com a razão imutável do homem. Todos esses fatores contribuíram para a formação do pensamento do iluminismo francês.

Os filósofos desta época diziam que só quando a razão e o conhecimento se difundissem era que a humanidade faria grandes progressos. A natureza para eles era quase a mesma coisa que a razão e por isso enfatizavam um retorno de homem a ela.

Falavam também que a religião deveria estar em consonância com a razão natural do homem. O iluminismo foi o alicerce para a Revolução Francesa de 1789.

Mais...

O termo Iluminismo indica um movimento intelectual que se desenvolveu no século XVIII, cujo objetivo era a difusão  da razão, a "luz", para dirigir o progresso da vida em todos os aspectos. Daí o nome iluminismo, tradução da palavra alemã "aufklarung", que significa aclaração, esclarecimento, iluminação.

 O iluminismo, mais do que um conjunto de ideias, foi uma nova mentalidade que influenciou grande parte da sociedade da época, de modo particular os intelectuais, a burguesia e mesmo alguns nobres e reis. Os iluministas eram aqueles que em tudo se deixavam guiar pelas luzes da razão e que escreviam  e agiam para dar sua  contribuição  ao progresso intelectual, social e moral e para criticar toda forma de  autoritarismo, fosse ela de ordem política, religiosa ou moral.

 Esse modo de pensar e de agir difundiu-se em muitos países da Europa, no século XVIII, o "século das luzes". Suas primeiras manifestações ocorreram, no século XVIII, na Inglaterra e na Holanda, com a contribuição do pensamento de Descartes, Newton, Spinoza e Locke. Mas o Iluminismo tornou-se um movimento especialmente forte na França, onde a crise do governo absolutista levou os filósofos a um debate profundo sobre a política e a sociedade de um modo geral.

 Os iluministas franceses questionavam a divisão da sociedade em "estados" ou "ordens", que privilegiava a aristocracia, em detrimento da burguesia e do povo em geral. No campo da política, criticavam a teoria do "direito divino" e da "soberania absoluta" dos governantes, defendendo a ideia de que o Estado e o poder monárquico eram resultado, não da vontade pessoal, mas de um contrato entre governantes e governados.

 A crítica ao absolutismo, formulada em fins do século XVIII pelo inglês Locke, foi aprofundada, no decorrer desse século, pelos franceses Montesquieu, Voltaire, Rousseau e pelos enciclopedistas. Das ideias de Locke e dos iluministas franceses surgiu a doutrina do Liberalismo.

 

Montesquieu e a divisão de poderes.

 Montesquieu 1689/1755, foi um dos mais influentes iluministas franceses do século XVIII. Em 1721 publicou "Cartas Persas", onde satirizava a sociedade francesa, suas leis e seus costumes, através do diálogo entre dois turistas persas. Viveu um período na Inglaterra, passando a admirar suas instituições. Em 1748, escreveu sua principal obra: O Espírito das Leis, na qual procurava explicar as leis que regem os costumes e as  relações entre os homens a partir da análise dos fatos sociais, excluindo qualquer perspectiva religiosa ou moral.

 Segundo Montesquieu, as leis revelam a racionalidade de um governo, devendo estar submetido a elas, inclusive a liberdade, que afirmava ser "o direito de fazer tudo quanto as leis permitem". Para se evitar o despotismo, o arbítrio, e manter a liberdade política, é  necessário separar as funções principais do governo: legislar, executar e julgar. Montesquieu mostrava que, na Inglaterra, a divisão dos poderes impedia que o rei se tornasse um déspota. "Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou a mesma corporação dos príncipes, dos nobres ou do povo exercesse três poderes: o de fazer as leis, e de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as desavenças particulares."

 A forma de governo ideal para Montesquieu era a monarquia parlamentar, sendo contrário à participação  popular. Ele buscou também um explicação  para a existência de tantas leis diferentes, nos diversos países, concluindo que três fatores condicionavam a multiplicidade delas: os físicos, como o clima; os religiosos e os socioeconômicos.

 

Voltaire: contra o absolutismo e a Igreja.

O escritor e filósofo francês François Marie Arouet(1694-1778) pseudônimo Voltaire, foi mais um defensor das liberdades civis do que um reformador  político. Viveu isolado por três anos na Inglaterra, onde foi influenciado pelas ideias de John Locke e de Newton. Ao regressar à França, publicou Cartas Filosóficas (1734) onde louvava os costumes e as instituições inglesas e atacava o despotismo da monarquia francesa, sendo perseguido por isso.

 Voltaire criticava as prisões arbitrárias, a tortura, a pena de morte e defendia a liberdade de expressão de pensamento. Era inimigo da Igreja Católica que chamava de "a infame" e defensor da religião natural, igual para todos os homens, sem doutrinas e os dogmas da religião cristã. Deísta, acreditava em Deus apenas como criador do universo, do qual é a causa e o princípio.

 Expulso de Paris, viveu na região da Lorraine, em Berlim e em Genebra, na Suíça. Em 1755, instalou-se em sua propriedade de Fernay, junto à fronteira da Suíça, onde morou até morrer, produzindo numerosos livros, peças teatrais, panfletos e cartas. Sua obra mais conhecida é "Candide", fabula filosófica sobre a natureza do bem e do mal.

 

Rousseau e o Contrato Social.

 Jean Jacques Rousseau (1712-1778) era natural de Genebra, na  Suíça, filho de artesãos e lutou muito contra a miséria. Um dos mais importantes escritores do Iluminismo francês, suas teorias provocaram grande impacto na educação, na literatura e na política. Suas principais obras foram:

 

- "Discurso sobre as Ciências e as Artes" e Discurso sobre a "Origem da desigualdade entre os homens"1755, nos quais afirmava que o homem nasce naturalmente bom, a sociedade é que o corrompe e defende a tese de que os homens, quando viviam no Estado de natureza, eram felizes, livres e iguais em direitos porque a propriedade não existia. A desigualdade surgiu quando o primeiro homem cercou um terreno e disse "isto é meu" e os outros aceitaram; a partir desse momento, "surgiram os crimes, as guerras e as injustiças".

 

- "A Nova Heloísa (1761), romance onde exalta a vida familiar a moralidade e critica a sociedade francesa cortesã, de sua época.

 

- "Emílio"1761, obra de pedagogia que coloca como objetivos da educação o desenvolvimento das potencialidades naturais da criança, dentro dos interesses próprios dela; a educação  deve ser livre, sem a imposição de livros e regras. Para Rousseau, tanto os processos educativos, quanto as relações sociais devem partir de um princípio básico: a liberdade como direito e dever.

 

– "O Contrato social" (1762), obra de teoria política onde Rousseau expressa suas opiniões sobre o governo e os direitos dos cidadãos. Segundo do ele, ao deixarem o estado de natureza, os homens estabeleceram entre si um contrato ou pacto, através do qual todos seriam iguais perante às leis. O Estado  (isto é, a comunidade politicamente organizada) e o governo (isto é, o agente executivo do Estado que deve realizar  a vontade geral), nascidos do contrato entre os homens, estavam submetidos as leis que deveriam ser aprovadas pelo voto direto da maioria dos cidadãos.  O soberano, constituído pelo contrato social, é o povo unido ditando a vontade geral, cuja expressão é a lei, Afirmava Rousseau: "Toda lei que o povo em pessoa não tenha ratificado é nula; não é uma, lei."

 

Seus livros mais divulgados foram "Emílio" que teve 22 edições e "A Nova Heloísa" com 50 edições.  Exerceu também influência sobre os revolucionários franceses de 1789, principalmente durante o "governo jacobino" (1793/94), sobretudo por meio de suas idéias sobre a igualdade, a bondade do povo, a soberania e a supremacia da maioria.

 

Enciclopedistas

Dentre os filósofos franceses do Iluminismo, sobressaíram-se Denis Diderot (l713/1784) e Jean D’Alembert (1717/1783), organizadores da "Enciclopédia ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers" (Enciclopédia ou Dicionário Racional das Ciências, das Artes e das Profissões), obra em 28 volumes que pretendia ser uma síntese completa aos conhecimentos filosóficos e científicos da época.

Entre seus colaboradores, contavam-se destacados filósofos, matemáticos, físicos e economistas, que concordavam com o racionalismo e o liberalismo.  Os dois primeiros volumes foram publicados em l751, exprimindo concepções políticas revolucionárias um sentimento antirreligioso.

 

Os sub-literatos

Durante o século XVIII, existiram na frança, à margem dos grandes pensadores iluministas, numerosos escritores que, por não  conseguirem destaque para as suas obras, viviam  no submundo, misturados a vigaristas, espiões da polícia. Em suas obras, mostravam um monarca indolente, cercado por auxiliares medíocres e corruptos. Suas denúncias apontavam para a podridão do regime, desmoralizando a monarquia diante dos súditos.

 

Livros como "Memoire sur la Bastilhe" de linguet, e "Letres de cachet et prisons d'État", de Mirabeau, denunciavam como os prisioneiros eram tratados, revistados e atirados em cubículos fétidos, sem  direito a julgamento, dormindo em colchões comidos por traças, enfrentando carcereiros violentos e tendo uma péssima alimentação. Esse livros, mesmo não tendo um programa de reforma para o Estado  francês, denunciavam o poder ilimitado das autoridades que podiam meter na cadeia qualquer cidadão, sem julgamento, com uma simples "lettre de cachet".

 Ao denunciarem as arbitrariedades, o desperdício, o parasitismo da cote, que custavam enormes somas ao Estado e mais impostos sobre a população, os subliteratos tornavam as instituições do Antigo Regime desacreditadas, enfraquecendo os mitos de justiça e de equilíbrio que legitimavam o Monarca ais olhos do povo.

 

Os fisiocratas e o laissez faire

A crítica dos iluministas ao Absolutismo atingiu também a política econômica desse regime: as práticas mercantilistas e a intervenção  do Estado na economia eram combatidos, na França, pelos adeptos da escola econômica fisiocrática.

 Os fisiocratas (de fisio, natureza; crato, governo, portanto governo da natureza) afirmavam que a verdadeira fonte de riqueza de uma nação  era a terra, sendo a agricultura a principal atividade econômica. A indústria e o comércio apenas transferiam riquezas já existentes de uma pessoa para outra.

 Assim como o universo e o corpo humano eram regidos por leis naturais, a economia também  o era, tornando-se pois desnecessária qualquer regulamentação  feita pelo Estado. O lema dos fisiocratas era: laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même. Seus principais representantes foram François Quesnay, fundador da Escola fisiocrata e Turgot, ministro das finanças de Luís XVI entre 1774 e 1776.

 Como ministro, Turgot procurou diminuir a ação do Estado na economia, aperfeiçoando o sistema de arrecadação, abolindo algumas corveias e facilitando o comércio de cereais. Nessa época, existiam barreiras alfandegárias entre as diversas regiões do país, que dificultavam a comercialização e a circulação  de mercadorias. O ministro  decretou: que livre a todas as pessoas ... exercer a espécie de comércio e as profissões artesanais que queiram...

 Turgot tentou fazer uma reforma fiscal para que a aristocracia pagasse impostos, assim como os demais franceses. Mas, enfrentou uma forte oposição das classes privilegiadas, sendo demitido em 1776 e suas medidas revogadas, agravando a crise financeira da monarquia.

 

O deísmo

A religião mais tipicamente iluminista é o deísmo: reconhece-se a existência de uma esfera sobrenatural e, especialmente, a existência de um deus pessoal e criador do universo, conceito ao qual se chega racionalmente, a partir da observação  da harmonia que reina no universo, mas não se reconhece nenhum outro atributo de Deus e, menos ainda, não se admitem cultos, ritos, dogmas, etc. A religião se torna um modo de sentir, um íntimo sentimento de comunhão com Deus, que decorre da adesão sentimental à harmonia da natureza.

 

REFORMA OU REVOLUÇÃO

0 pensamento dos "phillosophes", como eram conhecidos os iluministas, não tinha como propósito conduzir a uma revolução. Os iluministas propunham a reforma do Estado, submetendo as monarquias absolutistas às restrições emanadas das leis aprovadas pelos parlamentos ou assembleias de representantes do povo. Eles consideravam necessário educar "os monarcas, a fim de que estes pudessem preservar os direitos do cidadão e a liberdade do indivíduo”.

Do ponto de vista econômico, os iluministas criticavam os monopólios, as restrições à produção de mercadorias por corporações de ofício, as leis de proteção a determinado número de indústrias e a intervenção do Estado na economia, considerada desnecessária.

0 modelo da reforma era a Inglaterra, que após a Revolução Gloriosa de 1689 manteve a Monarquia, porém com o poder controlado pelo Parlamento, formado por nobres e burgueses preocupados na defesa de seus interesses, tais como a propriedade, a liberdade de opinião e o poder de legislar.

As ideias liberais dos iluministas tiveram grande penetração na França, onde um Estado falido e uma aristocracia apegada a seus privilégios tentavam, de todos os modos, opor-se as mudanças exigidas pela burguesia e pelo povo. Na Revolução Francesa de 17891 os princípios iluministas surgiram resumidos no lema revolucionário: "LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE”. No continente americano, as idéias liberais serviram para orientar os movimentos pela independência política das colônias.

 

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