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Indígenas, brancos e negros

Quando Tomé de Sousa chegou à baía de Todos os Santos, em 29 de março de 1549, mudou o jogo de forças na Colônia.

Indígenas, brancos e negros

Primeiro governador-geral

Quando Tomé de Sousa chegou à baía de Todos os Santos, em 29 de março de 1549, mudou o jogo de forças na Colônia. O governador-geral trazia instruções minuciosas, soldados, degredados, artesãos, padres, funcionários da Coroa, algumas mulheres e crianças – cerca de 1500 pessoas. Era um contingente respeitável, capaz de se impor aos nativos pela força, e tinha como principal objetivo implantar nas novas terras a tradicional ordenação portuguesa. D. João III resolvera se apossar daquela conquista ainda desconhecida antes que outras nações o fizessem.

 

Fundação de Salvador

A primeira medida do governador-geral foi ocupar um trecho de terra na entrada da baía. Ali Salvador começou a surgir. Foram erguidos um forte, casas, igrejas, cadeia – tudo rodeado por uma paliçada. Embora fossem toscas construções de palha e madeira, elas ocuparam os artesãos recém-chegados. Logo se expandiram nos arredores as plantações, sobretudo de mandioca, o pão da terra. Mais complicado do que erigir a cidade era cumprir as ordens do rei, incluídas em um Regimento: garantir a posse da terra, organizar a produção, instalar o governo e converter o gentio. Cada uma dessas metas exigia uma estratégia diferente.

 

Alianças com nativos

A solução encontrada pelos portugueses para garantir a posse da terra foi associar-se a uma tribo indígena para promover guerra aos inimigos dela. A partir de 1553, os recém-chegados estabeleceram várias acordos, em geral de tupis contra tapuias, ou seja, todos os não-tupis. Tais alianças eram necessárias: no Rio de Janeiro os franceses, que disputavam com os portugueses a ocupação do Brasil, haviam-se aliado aos inimigos dos tupis. Além disso, os escravos tão necessários para os brancos podiam ser capturados nas tribos inimigas.

 

Aprendendo com os nativos

Os machados e facas que os indígenas recebiam de seus aliados  europeus logo se tornaram essenciais – eram uma revolução cultural, um enorme salto tecnológico. Já para os portugueses, a convivência com os tupis era essencial para que pudessem se fixar na terra. Enquanto tentavam adaptar as sementes trazidas da Europa, aprendiam a sobreviver nos trópicos: os índios lhes mostravam as plantas comestíveis, as boas madeiras, ensinavam-nos a dormir em redes, caçar, pescar e cultivar a terra. Na prática, tratava-se de uma aliança informal, baseada em uma grande novidade para a época: o casamento.

 

Projeto açucareiro

A ocupação do território dependia, portanto, do bom relacionamento com os nativos. Já a segunda tarefa do governador, promover as atividades econômicas, requeria uma política oposta, pois implicava a captura de escravos. Como a exploração do pau-brasil era monopólio régio e, de qualquer modo, a madeira já começava a rarear junto ao litoral, os colonos resolveram tentar a cultura da cana e a produção de açúcar. A decisão era compreensível: em meados do século XVI o açúcar era uma mercadoria de grande valor e a técnica de sua produção, um segredo conhecido dos portugueses que a haviam aperfeiçoado nos Açores.

 

Os índios e o engenho

Não foi fácil iniciar a produção de açúcar na Colônia. O problema não era o desmatamento para o plantio da cana, pois os colonos contavam com a ajuda dos índios numa tarefa a que estes estavam acostumados. Porém, quando se tratava de cultivar a cana, a situação mudava: trabalhar sempre no mesmo lugar, realizando tarefas repetitivas cujo objetivo pouco entendiam, não fazia nenhum sentido para os índios. E usá-los para operar os engenhos era impensável: unidades de produção muito complexas, os engenhos usavam a mais avançada tecnologia, exigindo mão-de-obra especializada e dedicada.

 

Primeiros escravos negros

Por mais favoráveis que fossem a terra e o clima, a escassez de mão-de-obra era um sério obstáculo para o cultivo da cana e a fabricação do açúcar. Os colonizadores tentaram superá-lo por meio do cativeiro dos índios, passando a capturar todos os que podiam, até mesmo os das nações amigas. Mesmo assim o número deles era insuficiente. Por isso, já na época de Tomé de Sousa, os portugueses começaram a importar escravos da África. Os “negros da Guiné” seriam a solução de longo prazo.

 

Primeiros jesuítas

Junto com Tomé de Sousa, desembarcou na Bahia um pequeno grupo que por quase dois séculos iria crescer em número e importância, e desempenharia papel fundamental no trato com os índios: os seis jesuítas liderados pelo padre Manuel da Nóbrega. A Companhia de Jesus fora fundada pouco antes (1540) e uma de suas principais metas era a difusão da fé católica. Os índios pareciam perfeitos para tal propósito: puros e inocentes, não seria difícil convertê-los à verdadeira fé. Tanto na Europa como em territórios distantes, os jesuítas procediam sempre da mesma maneira, fundando colégios para moldar o espírito ainda maleável das crianças. Foi o que fizeram no Brasil.

 

Catequese

Nos primeiros anos da Colônia, os jesuítas foram os grandes protetores dos índios. Na segunda metade do século XVI, duas sociedades diferentes estavam em gestação. Numa delas, a dos colonos portugueses, os índios só podiam ser escravos ou aliados de guerra, e as índias, objetos sexuais. Na sociedade imaginada pelos jesuítas, os índios, embora não fossem escravos, também não seriam totalmente livres: deveriam obedecer aos padres, seguir uma moral rígida e abandonar muitos de seus costumes tradicionais.

 

Jesuítas e pioneiros

Além da sanha escravista dos colonos, os jesuítas enfrentaram também a oposição dos portugueses que se haviam incorporado às tribos, casado com várias mulheres e abandonado por completo a moral sexual européia. Com estes colonos, o conflito foi direto. Instalados junto das aldeias onde viviam os primeiros mamelucos, os colégios jesuíticos passaram a disputar a influência sobre os índios. Na década de 1560, este confronto teve seu ponto alto em São Paulo, então controlada por João Ramalho.

 

Retomada do Rio de Janeiro

Apesar de todas as dificuldades e contradições, a política do governo-geral deu resultados. Os portugueses expulsaram os franceses e estabeleceram bases sólidas em vários pontos do território. A Bahia firmou-se como sede do governo e, tal como Pernambuco, tornou-se produtora de açúcar. O Rio de Janeiro estava nas mãos dos portugueses. De 1549 a 1572, sob os primeiros governadores – Tomé de Sousa (1549-53), Duarte da Costa (1553-58) e Mem de Sá (1558-72) –, a Colônia mudou bastante, cumprindo-se os objetivos de ocupação, instalação do governo e início da produção econômica.

 

Incursões pelo interior

O crescente domínio do território não ocorreu de maneira tranqüila, como o comprova a morte do primeiro bispo do Brasil, Pero Afonso Sardinha, devorado em 1556 pelos aimorés. Duas necessidades básicas dos colonizadores ocasionavam um permanente estado de hostilidade entre brancos e indígenas nas áreas distantes dos núcleos povoados: a fome insaciável de mão-de-obra e a ânsia de descobrir riquezas minerais – até o final do século seguinte, ambas foram o principal motivo para a realização de constantes incursões pelo interior.

 

Epidemia de varíola

O sistema improvisado de alianças e guerras, casamentos e escravidão mantinha-se em precário equilíbrio e não demorou a se desestabilizar. Em 1563, ele sofreu um abalo catastrófico: uma “peste de bexigas” (varíola) dizimou os índios concentrados no aldeamento jesuítico de Salvador. Debilitados pela imobilidade forçada e pela ausência de defesas contra as doenças européias, os indígenas começaram a morrer aos milhares. Os sobreviventes fugiram para o sertão. A fome se espalhou entre os brancos, que ainda dependiam dos índios para o cultivo de alimentos. Esta foi a primeira grande crise que assolou os incipientes núcleos de povoamento da Colônia.

 

Cresce o tráfico de negros

O impacto da desorganização provocada pelas epidemias foi maior nas capitanias da Bahia e de Pernambuco, não só porque ali os portugueses haviam reunido maior número de índios, mas também por serem os centros de maior êxito da empreitada açucareira. Com a queda na produção dos engenhos, a única saída foi aumentar a importação de escravos africanos. E isto teve de ser feito às pressas, pois era cada vez maior a demanda pelo açúcar brasileiro nos mercados europeus – e, conseqüentemente, as rendas dos fazendeiros e da Coroa.

 

Negros da Guiné

Embora caros, os escravos africanos passaram a ser trazidos em quantidade. Eles apresentavam uma grande vantagem para os donos de engenho, pois já estavam acostumados a tarefas artesanais e ao cultivo sistemático de lavouras. Além disso, transplantados para uma terra desconhecida, encontravam maior dificuldade para fugir. Porém, só os senhores de engenho dispunham de recursos para adquirir mercadoria tão preciosa. Por isso, a maior parte dos africanos seguiu para o Nordeste. São Paulo, segundo centro mais importante de ocupação, distante das rotas da África e com poucas terras litorâneas, continuou dependendo dos “negros da terra”.

 

Dois padrões de ocupação

Com a chegada dos africanos, o Brasil passou a ter dois padrões de ocupação. Os engenhos do Nordeste continuaram prosperando e fazendo florescer a civilização do açúcar. Salvador e Olinda eram as cidades mais ricas da Colônia, por onde passava a produção de cada vez mais engenhos – e onde começavam a surgir os primeiros mulatos, também filhos da nova terra. Em São Paulo, prosseguia o cruzamento entre brancos e índias. Tão separados eram o Nordeste e o Sul da Colônia que, em 1572, a administração do território foi dividida em duas, com uma sede administrativa em Salvador e outra no Rio de Janeiro.

 

Domínio espanhol

Em 1580, o jovem rei de Portugal, d. Sebastião, organizou uma grande expedição contra os mouros do norte da África. O resultado foi trágico: uma fragorosa derrota em Alcácer-Quibir, durante a qual o rei desapareceu. Nunca se soube se foi morto ou aprisionado. A Coroa portuguesa passou para seu tio, o cardeal d. Henrique, que, já velho e doente, morreria um ano depois. Quem acabou herdando o trono foi Filipe II, rei da Espanha. A união das coroas teve graves conseqüências para o Brasil, pois a maior parte do açúcar aqui produzido era distribuído pelos holandeses, então em guerra com a Espanha.A nova situação, em que os interesses portugueses subordinaram-se aos espanhóis, levou os holandeses a tentar um golpe ousado: desenhar um mapa diferente do estabelecido pelo Tratado de Tordesilhas.

 

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