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Pré-História no Brasil

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Pré-História no Brasil

DESCOBRINDO CAMINHOS

 

Foi provavelmente por causa das glaciações que grupos humanos paleolíticos chegaram ao continente que chamamos atualmente de América, abandonando suas regiões de origem, há dezenas de milhares de anos. Não há consenso entre os estudiosos sobre a data aproximada da chegada humana ao continente americano. As divergências não são pequenas; para alguns ela ocorreu há cerca de 20 mil anos; para outros, em torno de 50 mil ou perto de 100 mil anos. E a polêmica envolve as possíveis rotas de chegada dos primeiros grupos humanos.

A diversidade de características biológicas e linguísticas entre os nativos da América reforça as hipóteses de que o povoamento inicial do continente americano tenha se dado a partir de, pelo menos, dois caminhos migratórios de caçadores-coletores: do Norte, pelo estreito de Bering, teriam vindo grupos asiáticos (a rota mais provável); e do sul, pelo oceano Pacífico, teriam chegado habitantes da Austrália e das ilhas polinésias (rota menos aceita no meio científico).

Considerando a hipótese de que a ocupação humana da América do Norte se iniciou há pelo menos 20 mil anos, ela teria se estendido para o sul da América, em direção à Patagônia, antes de 10 mil anos atrás. Os estudiosos consideram que os primeiros grupos humanos teriam percorrido pelo menos três caminhos para chegar à região que viria a ser o território brasileiro. Esses grupos teriam saído do litoral das atuais Colômbia e Venezuela e chegado à Amazônia; ou atravessado os Andes (em latitudes mais baixas); ou então entrado pelo litoral, seja vindo da Patagônia pelo oceano Pacífico em direção ao norte, seja partindo do Caribe e entrando pelo litoral nordestino em direção ao Atlântico Sul.

Verifica-se, etnicamente, a existência de dois grandes grupos. O que chegou primeiro se assemelha mais aos negros africanos e aos aborígines da Oceania. A esse grupo pertence o esqueleto feminino que, reconstituído com técnicas especiais, foi batizado de Luzia.

O outro grande grupo, posterior, se parece mais com os asiáticos, e está na base da composição étnica da maior parte dos grupos indígenas atuais das Américas.

 

DIVERSIDADE DE CULTURAS

 

Quaisquer que tenham sido as rotas, os dados sobre esses primeiros povoadores são, em geral, agrupados de acordo com a ocupação de regiões geográficas distintas. Pesquisas arqueológicas têm demonstrado que a América contou com civilizações que desenvolveram técnicas de agricultura, metalurgia e engenharia, além de sistemas de escrita, arte, organização social e política. Entre as sociedades americanas com o maior número de artefatos descobertos e preservados estão as da Mesoamérica, que se desenvolveram a partir de 1200 a.C., e as da região andina central, após 300 a.C.

Antes da chegada dos europeus, a América do Norte também era ocupada por centenas de grupos nativos, falantes de mais de trezentas línguas diferentes. Entre os mais lembrados que povoaram o território desde o Atlântico até o Pacífico, estavam os cherokees, os iroqueses, os comanches e os apaches. Vários nomes de regiões norte-americanas foram herdados de alguns grupos, a exemplo de Iowa, Dakota, Illinois, Missouri, Massachusetts, entre outros. Como em outras regiões do continente, a chegada do europeu trouxe confrontos, dominação e novas doenças, por exemplo o sarampo e a gripe, causando epidemias com milhares de vítimas. Em razão de séculos de colonização e expansão dos brancos de origem europeia, houve uma progressiva diminuição da população de origem nativa na América do Norte, e só recentemente ocorreu uma reversão dessa situação, voltando essa população nativa a crescer.

Os primeiros agrupamentos humanos das Américas tinham como base de subsistência a caça, a pesca, a coleta de frutos e raízes e, em alguns casos, atividades agrícolas. Os registros mais antigos dessas sociedades na região do atual Brasil podem ser encontrados nos sítios arqueológicos do Boqueirão da Pedra Furada, no Piauí, na Toca da Esperança, na Bahia,

e em Lagoa Santa, em Minas Gerais.

As pinturas rupestres encontradas no atual Piauí, no município de São Raimundo Nonato, foram datadas por alguns especialistas em mais de 12 mil anos, enquanto as pedras lascadas e os restos de fogueiras, supostamente deixados por grupos humanos, foram estimados em mais de 50 mil anos. Essas datações foram contestadas por outros estudiosos, por considerarem que esses vestígios poderiam ser resultado de raios (como as madeiras queimadas), quedas de blocos de rocha e outros fatores naturais. Esses estudiosos estimaram datas bem inferiores, abaixo de 30 mil anos. Os artefatos de caça, as pinturas rupestres e os restos de fósseis registrados para os primeiros grupos humanos habitantes do atual território brasileiro indicam a caça de grandes animais e a existência de uma vida grupal em cavernas. Porém, são poucas as informações de que dispomos sobre como esses grupos estavam organizados internamente. Considerando os registros rupestres, sabemos que davam grande importância aos animais das regiões em que viviam, pois em geral estes são representados de maneira mais detalhada e em tamanho maior do que os seres humanos.

Contudo é possível que isso estivesse mais ligado às crenças e ao universo mágico desses povos do que à necessidade de se alimentar. Homens, mulheres e figuras sem identificação social são pintados sozinhos, em pequenos grupos ou em bandos numerosos. Nesses últimos casos, aparecem envolvidos em diversas atividades coletivas, como caçadas, danças e lutas, o que indica que os membros das primeiras sociedades que viveram por aqui estavam ligados por fortes laços culturais.

 

Além disso, pelo que sugerem as pinturas rupestres, essas sociedades não definiam rigidamente papéis femininos e masculinos. Embora existam desenhos de homens e mulheres, diferenciados pela representação de seus órgãos sexuais, muitas figuras não apresentam essa identificação, ou seja, foram representadas sem que o artista tivesse a preocupação de distinguir os sexos.

 

Por isso, parte dos estudiosos considera que essas sociedades não eram patriarcais e que mulheres e homens compartilhavam de relativa igualdade. Essa hipótese é reforçada pela existência de esqueletos femininos enterrados juntamente com pontas de flechas.

Os grupos de caçadores-coletores estiveram presentes em quase todo o território e guardavam muitas diferenças culturais entre si. Ao Sul, nos atuais territórios do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, foi definida uma tradição denominada arqueologicamente Humaitá. Fazem parte dessa tradição grupos de caçadores-coletores dedicados à pesca, à caça e à coleta de raízes, moluscos e frutos silvestres, além da fabricação de objetos de pedra lascada e polida.

Os registros mais antigos encontrados em Santa Catarina são vestígios de fogueiras datados de mais de 8 500 anos. A descoberta de fragmentos de cerâmica no vale do rio Canoas, em Santa Catarina, indica resíduos de milho com datação entre cerca de 340 anos até 4 mil anos atrás. O que essa descoberta significa? Trata-se de uma evidência do cultivo de milho, do sedentarismo  e de organizações sociais diferentes do nomadismo dos caçadores-coletores. Esses povos seriam agricultores há mais de 4 mil anos.

 

Para a região Sul também são classificadas as tradições Umbu (cerca de 6 700 anos, caçadores-coletores, dedicados à fabricação de instrumentos de caça) e Itararé (cerca de 1 500 anos, agricultores, construíam casas subterrâneas). Já os vestígios da tradição sulista denominada Taquara foram localizados no planalto Meridional, e compreendem principalmente cerâmicas datadas de 5 mil a 300 anos. Também foram encontrados vestígios de povos pescadores e coletores (sambaquianos), os sambaquis, com datação de cerca de 5 mil anos. Alguns sambaquis atingem 10 metros de altura. Por meio da análise das camadas de matéria orgânica e inorgânica, é possível estudar os dados da vida material e cotidiana, como a base alimentar dessas populações.

Há cerca de novecentos anos, registram-se os vestígios dos povos tupis-guaranis, migrados da Amazônia e que se fixaram no litoral e vales dos rios do planalto Meridional. Na região amazônica, os habitantes desenvolveram a confecção de objetos feitos de pedra e, posteriormente, de cerâmica desde pelo menos 5 mil anos. A cerâmica produzida na área da

atual cidade de Santarém foi classificada como cultura santarém. Por volta do ano 1000, sobressaiu a cultura marajoara, como apontam os vestígios da cerâmica policrômica (muitas cores) que produziram. Há cerca de setecentos anos, existiriam na ilha de Marajó (Pará) cerca de 100 mil habitantes.

A tradição Aratu/Sapucaí, examinada em diferentes localidades – de São Paulo a Mato Grosso e Goiás e do litoral da Bahia ao Rio Grande do Norte –, tem registros que datam de antes do século VIII. Nessa tradição, destacam-se principalmente as cerâmicas denominadas utilitárias, como aquelas utilizadas para preparo e consumo de alimentos. A tradição guarita foi desenvolvida por grupos humanos da região do baixo rio Negro, no Amazonas, a partir do ano 1000, destacando-se por seus objetos cerâmicos cerimoniais, ou seja, utilizados em cerimônias e ritos como os de sepultamento.

Ainda envolvendo a área que hoje corresponde ao atual estado do Acre, estão sendo estudados aproximadamente duzentos sítios arqueológicos e, estima-se, com uma população de cerca de 60 mil pessoas, vivendo no interior da selva amazônica desde antes do ano 1000.

O quadro que os europeus encontraram ao chegar a essas terras era de expansão dos grupos tupis-guaranis, que conquistaram e dizimaram povos caçadores-coletores, como os povos dos sambaquis, e ocuparam a maior parte da costa litorânea da região que viria a ser o Brasil.

Depois de milênios de ocupação do continente americano, desenvolvendo as mais diversas organizações sociais e culturais (observe a linha do tempo na página anterior), deu-se o encontro entre as populações ameríndias e uma nova leva de conquistadores.

A chegada dos europeus no século XV significou o início do processo de destruição das populações americanas, embora muitos elementos de suas culturas tenham sido incorporados às culturas miscigenadas que se formaram a partir do contato. Os conquistadores europeus também tomaram conhecimento da batata, originária da região Andina, e do milho, cultivado inicialmente na Mesoamérica, hoje uma das bases da alimentação mundial.