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Tenentismo: Crise da República Velha

Os tenentes propunham um processo revolucionário para livrar as forças armadas de influências tão nefastas, embora pouco discutissem a respeito do que fazer após a revolução.

Tenentismo: Crise da República Velha

Embora muitas vezes originada no seio da classe média, a insatisfação tenentista não deve ser caracterizada como forma de representação e defesa dos seus interesses. Muitas das características e propostas tenentistas iam muito além das pretensões das camadas médias (por exemplo, a ideia de centralização política ou o elitismo do movimento, que o levava a distanciar-se de setores não militares).

As origens do movimento tenentista ligam-se às mudanças ocorridas no interior do próprio exército: a Escola Militar da Praia Vermelha foi fechada em 1904 e, em 1911, criou-se a Escola Militar do Realengo, ambas no Rio de Janeiro. A primeira destacara-se, desde o final do império, por formar oficiais dotados de sólida base positivista, preocupados com questões nacionais, e não apenas militares. Já o ensino no Realengo tinha outro caráter, eminentemente técnico.

A própria eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914 e as transformações técnicas daí decorrentes (por exemplo, novas armas, como tanques, gás venenoso e aviões) impunham maior profissionalização às novas gerações de oficiais formados a partir do final da década de 1910. O abandono em que o governo oligárquico deixara o exército e as restrições políticas, e não necessariamente profissionais, impostas à ascensão na carreira militar geravam preocupação e descontentamento entre os tenentes. Esse baixo oficialato rejeitava os oficiais da velha-guarda, isto é, as altas cúpulas militares ligadas ao governo.

Os tenentes propunham um processo revolucionário para livrar as forças armadas de influências tão nefastas, embora pouco discutissem a respeito do que fazer após a revolução. Não tinham um projeto consistente para o Brasil, mas propunham a moralização do país, pelo voto secreto e maior centralização política, eliminando o poder das oligarquias e dos “coronéis”. Defendiam ainda o ensino obrigatório. Na verdade, não rejeitavam o sistema republicano (e muito menos o capitalismo), mas apenas seus dirigentes. Para eles, colocando-se o homem certo no lugar certo e realizando umas poucas reformas, os problemas do Brasil estariam solucionados. O “homem certo” deveria ser procurado entre os tenentes, o que demonstrava não só o caráter romântico, mas principalmente o elitismo do movimento. As revoltas tenentistas representaram o principal elemento de ameaça ao regime oligárquico a partir da década de 1920.

 

e Crescem os Confrontos...

 

Em 1918 faleceu o recém-reeleito Rodrigues Alves e assumiu provisoriamente o vice-presidente Delfim Moreira. Nas novas eleições que se seguiram não houve consenso entre as oligarquias paulista e mineira, e o nome apoiado foi o do paraibano Epitácio Pessoa. Para as eleições de 1922, São Paulo e Minas Gerais lançaram a candidatura de Artur Bernardes. Os estados do Rio

Grande do Sul, da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, que ocupavam papel secundário na vida política nacional nesse período, resolveram desafiar as oligarquias dominantes, no movimento chamado Reação Republicana, e lançaram como candidato o político fluminense Nilo Peçanha. O surgimento de uma dissidência oligárquica fez das eleições de 1922 uma disputa

verdadeira, caso raro na República Velha.

Nilo Peçanha e a Reação Republicana passaram a  pregar a moralização política – o que, embora representasse uma flagrante contradição com as origens oligárquicas do movimento, sensibilizou parte do crescente eleitorado urbano. Muitos órgãos de imprensa também se envolveram apoiando um dos lados. Observe que as oligarquias que formavam a Reação Republicana tradicionalmente beneficiavam-se das práticas políticas “de curral” em seus estados. Assim, sua pregação pela moralização da política era quase sempre uma estratégia eleitoral para atrair votos dos setores urbanos. Cabe questionar se uma eventual vitória do movimento resultaria de fato em uma ruptura com as práticas políticas predominantes até então.

Nas eleições de março de 1922 – fraudulentas, como era comum –, Artur Bernardes foi vitorioso. Em meio ao descontentamento no meio militar, a posse do novo presidente foi marcada para novembro daquele ano. Reagindo à vitória de Bernardes e tentando impedir sua posse, em 5 de julho de 1922 sublevou-se um grupo de oficiais do exército no Forte de Copacabana, na capital da República, Rio de Janeiro.

A Revolta do Forte de Copacabana, como acabou sendo chamada, foi a primeira grande rebelião tenentista e, mesmo fracassada, teve grande importância, pois tornou público o movimento. Alguns de seus líderes foram consagrados como heróis.

Em 1923, explodiu a Revolução Gaúcha. O estopim foi a eleição – pela quinta vez consecutiva – do velho político “pica-pau” (pertencente ao Partido Republicano Rio-Grandense) Borges de Medeiros para o governo do estado. Seus rivais, os “maragatos” liderados por Assis Brasil, levantaram-se contra a reeleição, contando com o apoio do presidente da República. A solução para o conflito só surgiu após meses de intensos combates, quando os dois lados firmaram o Pacto de Pedras Altas, estabelecendo que, concluído o mandato de Borges de Medeiros, ficavam proibidas as reeleições para governador no estado. Abria-se, assim, espaço para uma nova geração de políticos gaúchos, entre os quais logo se destacariam Flores da Cunha, Osvaldo Aranha, Lindolfo Collor e Getúlio Vargas.

No governo de Artur Bernardes, o desgaste do regime oligárquico se intensificou, com pressões – sobretudo rebeliões tenentistas – e a própria crise interna, que multiplicou as dissidências oligárquicas nos níveis federal e estadual.

Em 1924, mais precisamente em julho, iniciou-se a segunda grande revolta tenentista, a Revolução Paulista de 1924. Mais uma vez, o movimento deveria ter tido um caráter nacional, mas permaneceu limitado a poucos focos, notadamente na cidade de São Paulo, no Rio Grande do Sul e no Amazonas. Em São Paulo, unidades do exército, com o apoio de elementos da poderosa Força Pública do estado, sublevaram-se, tomando pontos estratégicos da cidade.

No comando do movimento estava o general Isidoro Dias Lopes, auxiliado por Miguel Costa. Os rebelados atacaram o palácio dos Campos Elísios, sede do governo estadual. Após intensos combates, o governador Carlos de Campos fugiu. O movimento rejeitava a participação popular. À população pedia-se apoio, compreensão e, principalmente, passividade. Além disso, a preocupação maior estava em garantir os interesses das elites, tudo se fazendo para “restabelecer a vida normal”, e não necessariamente criar algo novo.

A reação do governo federal foi violenta: a cidade de São Paulo foi cercada e iniciou-se um pesado bombardeio, que acabou por atingir os bairros mais pobres da cidade, como o Brás, bairro operário. Pressionados pelo poder de fogo governamental e tratados com desconfiança cada vez maior pelo operariado – que eles marginalizavam, mas que pagava a revolução com a própria vida –, os rebeldes decidiram abandonar a cidade. Em 27 de julho, furou-se o bloqueio do exército e os revoltosos se deslocaram rumo ao oeste, em direção ao norte do Paraná, fronteira com o Paraguai e a Argentina.

Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, o tenente Luís Carlos Prestes, com o apoio do também tenente João Alberto, reuniu algumas unidades militares do interior do estado e organizou uma coluna armada que se dirigiu para o norte a fim de encontrar os paulistas. Em abril de 1925, rebeldes tenentistas paulistas e gaúchos encontraram-se próximo a Foz do Iguaçu, sempre fustigados por forças governamentais.

Seguindo uma sugestão de Prestes, os revolucionários se dividiram em dois grupos: enquanto um deles, liderado pelo general Isidoro, buscou refúgio político na Argentina e no Paraguai, outro continuou a luta, sob o comando de Miguel Costa e Luís Carlos Prestes. Originou-se, assim, a Coluna Prestes, que, após um desvio pelo território paraguaio, retornou ao Brasil pelo Mato Grosso e iniciou sua marcha pelo interior. Durante quase dois anos, isto é, até fevereiro de 1927, a coluna percorreu aproximadamente 25 mil quilômetros, passando por 11 estados, e sempre evitando o confronto direto com as tropas governamentais, geralmente em maior número.

A coluna fez nascer um mito em torno do nome de Luís Carlos Prestes. O “Cavaleiro da Esperança”, como passou a ser chamado, tornou-se um herói nacional, pelo menos para os grupos contrários à ordem oligárquica, notadamente setores médios urbanos. Seu grande feito foi manter a coluna ativa, invencível e capaz de sobreviver às privações de uma campanha desgastante. No início de 1927, liderados por Prestes, os últimos sobreviventes do movimento, menos da metade dos 1 500 originais, buscaram refúgio na Bolívia.

Artur Bernardes reagiu às atribulações por que passou seu governo com medidas autoritárias, como a decretação quase constante de estado de sítio, restrições à liberdade de imprensa e a reforma constitucional de 1926, fortalecendo o poder do presidente, sem, contudo, alterar as práticas políticas oligárquicas. Seu governo refletiu a crise do regime.